23 de set de 2012

Cartas para Helena

às setembro 23, 2012 0 comentários

23 de Abril de 2012.
Vilarejo Boa Felicidade.

Querida Helena. A primavera chegou a pouco tempo e com ela começaram as colheitas das flores,  lembrei-me do tempo que íamos a fazenda de Sr. Antônio visitar suas plantações de margaridas, gerânios, lírios, Girassóis... Enfim, aquelas nossas tardes primaveris sempre foram muito importantes para mim, porque depois de colher algumas flores com Sr. Antônio, sempre nos sentávamos na varanda da casa dele tomando chá de flor de laranjeira com rosquinhas de canela e batata-doce, você lembra das roquinhas que ela fazia não lembra ? Hmm...  Nossa, até hoje sinto o cheiro delas, as de batata-doce eram as suas preferidas... Lá ficávamos sentadas lá por horas, até depois do por-do-sol, ele contava-nos suas histórias inacreditáveis, suas aventuras, suas piadas, e nós duas riamos sem fim... Sr. Antonio apesar de solitário nunca fora um homem infeliz e fazia questão de transmitir isso para a gente...
Mas enfim Helena, as coisas mudam não é mesmo ? Infelizmente, mudaram...
Depois de um inverno desses qualquer , nunca gostei muito dessa estação, sempre me fez mal, pois fora ela que sempre trouxe partidas e dor na espinha... enfim, depois de um inverno desses qualquer, decidimos tomar um rumo diferente, na verdade não foi um rumo muito bem decidido, depois que Sr. Antonio adoeceu e o filho dele o levou para a cidade, e nós paramos de visitar sua plantação de flores que depois de um tempo deixou de existir, fomos muito pouco lá, uma vez fomos nós duas, depois eu não  fui mais...
Lembro que a ultima vez que nos vemos havíamos brigado, uma briga boba, como se fossemos duas adolescentes, você sempre fora uma boba orgulhosa, achou-se no direito de não pedir desculpas. Eu da mesma forma que você, também me senti no mesmo direito. Bem, passamos quantas primaveras longe ? Quatro? Cinco ? Acho que bem mais que isso...
Depois da briga sem motivos, com orgulho ferido, a gente se separou, tomei um rumo diferente, decidi fazer faculdade de Administração, algo que nunca fora meu sonho mas me permitiu ser , coordenadora de grupo, depois gerente de uma mesma empresa...
Todos os fins de tarde mesmo naquela agitação da empresa, por alguns instantes fios de sol entrava pela janela do escritório, e era nesse mesmo instante que eu me lembrava de você e do Sr. Antonio, mais de você... Eu sabia que Sr. Antonio por sua idade e pela sua doença já não aguentara muito o passar das estações, e mesmo sem saber o que tinha realmente acontecido com ele, eu pudia sentir que ele estava bem, e sempre perto de mim...
Mas de você eu não sabia, só que estava viva, soube de uma ou duas bocas que tinha feito Direito, e tinha passado no concurso para juíza... percebi que as coisas tinham dado certo para você, era o que você sempre quis, e eu fiquei muito feliz por você...
Helena... eu tentei me comunicar com você de várias formas, mas acho que nunca deu certo, uma vez fui ao fórum lhe procurar, mas você não estava, deixei recado com uma moça com meu telefone e endereço, e até hoje eu espero noticias suas... Mas eu percebi que a tal moça não lhe dera o recado, esqueceu talvez... Lembrei do que o Sr antônio sempre dizia ... "Muitas pessoas irão querer separar a amizade de vocês. Porque ela é muito bonita..."
Essa semana, nesse inicio de primavera, eu tirei férias e decidir ir pra algum lugar distante da cidade, e relutando com meu passado eu decidi voltar ao vilarejo em que morávamos... lá continua tudo tão lindo quanto antes, como diz uma música que eu sempre ouvi..Lá o tempo espera, Lá é primavera, Portas e janelas ficam sempre abertas Pra sorte entrar..."  e uma dessas tarde sem o que fazer fui ao sitio de Sr. Antonio.. Ao chegar na frente vi uma placa de vende-se na casa dele, estava tudo coberto por matos muito alto, e o portão tava caído de um lado, demorei em frente do sitio, relembrando todos os nosso momentos lá... Confesso que meus olhos se encheram  d'água... Depois de um tempo decidi entrar, foi tudo muito difícil Helena, o sitio estava em péssimo estado, com mato e mais mato.. passei pela frente da casa que tinha destruído a tinta pelo tempo,  e decidi ir ao fundo onde sentávamos para ver o por-do-sol, acredita que o banco que sentávamos estava lá ainda? tudo muito enferrujado, mais ainda tava lá, fitei tudo por muito tempo, e acredite ou não eu senti o cheiro dos biscoitos e do chá de flor de laranjeira...

O mais inacreditável Helena, foi que no caminho que dava para o jardim de Sr. Antonio havia uns pés de lírios, me surpreendi e decidi ir ao jardim. Apesar de muito mato havia sim alguns lírios, alguns girassóis, muito escondido, mas dava pra ver que apesar de tudo elas ainda relutavam em renascer...
Acho que tudo foi um sinal. Fiquei ali sentava, lembrando e chorando nosso momentos, foi um tempo tão bom, uma amizade tão boa. Que eu confesso que não queria perder assim, sempre fui muito verdadeira... E amizades verdadeiras não se destroem com qualquer besteira não é ? Mais a nossa se foi.. Mas eu queria lembrar muito dela ainda... Então eu decidi comprar o sitio,  procurei  responsável e acertei tudo. Vai dar muito trabalho consertar tudo aqui, tem coisa quebradas, enferrujas, precisando de pinturas e acabamento... Mas eu quero tudo como antes... Vai faltar muita coisa pra ser como antes... Mas eu to disposta a ajeitar tudo... Vai faltar Sr. Antonio com seu chá e seus biscoitos deliciosos, além de suas histórias e pidas... Vai faltar você e o seu riso... mas a gente tem que se acostumar com as coisas não é ? Sr Antonio sempre dizia "Apesar da distância a força da amizade permanecerá..." é por isso que voltei ao vilarejo e ao sitio de Sr. Antonio, por que ainda sinto essa força aqui pertinho...

Te escrevi Helena, por que fui ao centro do vilarejo e reencontrei com uma tia sua, ela me deu seu endereço da cidade, e resolvi escrever contando o que realmente aconteceu... Se eu der sorte você vai ler, e caso eu dê mais sorte ainda você responderá... 
Mas antes que aja cobrança e culpas jogadas na cara, quero que saiba que me arrependo por qualquer coisa que eu tenha feito ou dito.. Que a minha vida apesar de corriqueira não consegui te tirar do pensamento, e que nenhuma da minhas amizades te substituiu, eu ainda acredito na força da nossa amizade...

p.s. Não deixe isso se perder...



Toda a minha saudade e meu amor de sempre...


Valéria.









20 de set de 2012

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"— É pecado sonhar?
— Não, Capitu. Nunca foi.
— Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?
— Divindade não destrói sonhos, Capitu. Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer."

— Dom Casmurro - Machado de Assis 
 

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