Há pessoas que atravessam a nossa vida.
Outras atravessam o nosso corpo.
Você atravessou a minha consciência.
E talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido te transformar em passado.
Porque o passado costuma adquirir uma textura distante, quase imóvel, enquanto você permanece vivo dentro de mim. Vivo como certas músicas ou certas noites quentes demais: basta encostar nelas e tudo reacende. Não com violência. Pior. Com familiaridade.
É difícil explicar a permanência de alguém.
Principalmente quando a razão já organizou a partida, os móveis da alma já foram rearrumados, os dias já aprenderam novos ritmos — e ainda assim existe um nome que continua ecoando por dentro como água caindo numa casa vazia.
O seu.
Durante muito tempo achei que sentia raiva. Mas não era. A raiva pressupõe ruptura, e entre nós nunca houve verdadeiramente. Houve suspensão. Medo. Silêncio. Pessoas demais orbitando aquilo que talvez devesse ter pertencido apenas a nós dois.
E houve cansaço.
O amor, às vezes, também cansa.
Não por falta de intensidade.
Mas pelo excesso dela.
Você tentou proteger o mundo inteiro enquanto eu sangrava tentando entender qual era exatamente o meu lugar na sua vida. E a coisa mais cruel sobre isso é que eu nunca duvidei do sentimento. Eu duvidei da possibilidade de sobreviver dentro dele.
Porque amar alguém escondendo partes de si é uma espécie lenta de asfixia.
Então fui embora.
Ou pelo menos tentei.
Passei a viver dias cuidadosamente organizados, como quem coloca livros em prateleiras para evitar o desabamento da casa. Trabalho, rotina, responsabilidades, conversas superficiais, novas tentativas de felicidade. Tudo milimetricamente pensado para que você não encontrasse mais espaço dentro de mim.
Mas algumas pessoas não precisam de espaço.
Elas já são parte da arquitetura.
E foi isso que descobri quando te vi outra vez.
Meu corpo lembrou antes da minha dignidade.
Existe alguma coisa profundamente humilhante em perceber que alguém ainda tem o poder de alterar sua respiração apenas descendo uma escada, sorrindo de lado ou dizendo seu nome num tom mais baixo. Como se a memória física do desejo fosse mais inteligente que qualquer esforço racional.
E Deus...
como eu quis permanecer indiferente.
Mas você me olhou.
E eu entendi tudo de novo.
Entendi as músicas.
Os silêncios.
As interrupções.
As saudades que apareciam do nada em tardes comuns.
Entendi por que algumas pessoas nunca aceitaram completamente a nossa existência: porque certas conexões constrangem quem vive relações mornas.
O que existe entre nós nunca foi morno.
Sempre foi excessivo.
Bonito demais para caber direito.
Triste demais para desaparecer.
E talvez seja justamente isso que me prende: a sensação de que, apesar de tudo, ainda existe verdade quando nos olhamos.
Você fala comigo e algo em mim desacelera.
Ao mesmo tempo, tudo acelera.
É contraditório.
Como quase todos os sentimentos profundos.
Quando você disse que sua mente vira música ao me olhar, eu sorri, mas por dentro senti vontade de chorar. Porque eu também transformei você em trilha sonora sem perceber. Existem canções que não consigo ouvir sem que alguma parte minha te procure imediatamente, como se o amor tivesse criado residência secreta dentro da linguagem das coisas.
E talvez tenha criado.
Porque você aparece em detalhes absurdos:
no cheiro da chuva sobre o asfalto,
na exaustão bonita depois de um dia longo,
na vontade súbita de pegar uma estrada sem avisar ninguém,
na parte da noite em que o silêncio deixa de ser confortável e começa a parecer ausência.
Você aparece principalmente quando estou em paz.
Talvez porque exista uma diferença brutal entre desejar alguém e reconhecer alguém. E eu reconheço você até no escuro.
Reconheço sua solidão tentando parecer força.
Reconheço esse seu hábito de carregar o caos sozinho como se dividir dor fosse fraqueza.
Reconheço o cuidado escondido dentro dos seus silêncios, embora eles tenham me machucado tantas vezes.
Mas também reconheço a mim mesma perto de você.
E isso talvez seja o mais perigoso.
Porque existe uma mulher em mim que desperta quando você chega. Uma mulher menos contida, menos lógica, menos preocupada em sobreviver corretamente. Uma mulher que ainda acredita em vertigem. Que ainda sente o coração acelerar ao imaginar um beijo. Que ainda seria capaz de atravessar quilômetros apenas para repousar a cabeça no peito de alguém por alguns minutos e esquecer o peso do mundo.
Você me devolve uma versão minha que eu havia aprendido a esconder para continuar funcionando.
E eu não sei se isso salva ou destrói.
Talvez as duas coisas.
Há algo profundamente íntimo em querer rir por horas ao lado de alguém. Mais íntimo até do que o desejo. Porque o desejo pode nascer da ausência. Mas o descanso, ah, o descanso exige reconhecimento.
E quando você falou sobre abraço, sobre cochilar, sobre paz, eu compreendi imediatamente que o amor entre duas pessoas talvez more justamente aí: nesse raro instante em que o corpo deixa de se defender.
Eu queria te dizer que ainda penso em você.
Mas seria pouco.
Penso em você com o corpo inteiro.
Na pele.
Na memória.
Na insônia.
Na parte mais funda da minha vaidade feminina.
Na minha fome de beleza.
Na minha vontade de viver algo que não precise ser escondido para existir.
E ao mesmo tempo tenho medo.
Não de sofrer.
Sofrer eu sobrevivo.
Tenho medo de voltar para um lugar onde eu precise diminuir minha luz para caber na vida de alguém.
Porque eu me reconstruí sozinha.
Recolhi cada pedaço meu com as próprias mãos.
Aprendi a continuar mesmo atravessada pela ausência.
E talvez seja isso que torna tudo tão delicado agora:
eu ainda quero você,
mas já não aceito me perder no caminho até você.
Mesmo assim, quando você aparece, alguma coisa em mim floresce numa violência silenciosa.
Como essas plantas que nascem entre rachaduras de concreto.
Contra toda lógica.
Contra todo cálculo.
Contra tudo o que deveria impedi-las.
Talvez certos sentimentos sejam assim:
indisciplinados.
E talvez amar seja justamente isto:
continuar sendo atravessado por alguém mesmo depois que o mundo inteiro insiste que já deveria ter passado.