Aconteceu de novo.
Depois de tanto tempo, de tanta tentativa disciplinada de seguir em frente, você apareceu outra vez na minha frente como certas músicas antigas que a gente acha que superou até ouvir os primeiros acordes. E bastou um abraço rápido, torto, cheio de coisa não dita para tudo voltar violentamente ao lugar.
É estranho como algumas pessoas nunca deixam de morar na gente.
Mesmo depois das brigas.
Dos silêncios.
Das versões cansadas que nos tornamos longe um do outro.
Porque a vida seguiu, claro.
Seguiu com outros corpos, outras casas, outras promessas improvisadas para tentar preencher ausências que continuavam intactas. Mas existe uma diferença brutal entre esquecer alguém e apenas aprender a sobreviver sem essa pessoa.
Eu sobrevivi.
Mas esquecer você nunca aconteceu de verdade.
E talvez por isso tenha sido tão intenso quando nos vimos outra vez. Havia saudade acumulada no corpo. Saudade física. Saudade de voz, de cheiro, de provocação, daquele jeito absurdo que você me olha como se me despisse primeiro pela alma.
A gente conversava há dias, semanas talvez, como quem rodeia um incêndio sabendo exatamente o que acontece se chegar perto demais. E mesmo assim fomos.
Porque certas pessoas despertam na gente uma irresponsabilidade emocional quase bonita.
E foi bonito.
Perigosamente bonito.
Te beijar outra vez foi como abrir uma porta antiga e descobrir que tudo ainda estava no mesmo lugar: a fumaça, a vertigem, o desejo, o medo. Principalmente o medo.
Porque junto com a vontade veio também a memória de tudo o que doeu.
Seu silêncio.
Minha fuga.
As pessoas em volta.
As coisas mal explicadas.
A sensação constante de sermos interrompidos antes mesmo de começar.
E ainda assim, no meio de toda essa bagunça emocional, teve um instante em que eu olhei pra você e pensei: “droga, ainda é você”.
Ainda.
Talvez isso seja o mais difícil de admitir.
Depois veio o susto prático da vida adulta. A preocupação. A pílula sobre a mesa como um lembrete cruel de que até os momentos mais bonitos carregam consequências reais. E eu vi você tenso, distante, preocupado. Vi seu abraço rápido demais e imediatamente meu coração voltou para dois anos atrás, como se qualquer mudança mínima no seu olhar pudesse anunciar abandono outra vez.
É cansativo amar alguém enquanto tenta diferenciar o presente dos próprios traumas.
Mas também houve delicadeza.
Na forma como você apareceu.
Na responsabilidade silenciosa.
No jeito ansioso de tentar resolver as coisas sem me deixar sozinha nelas.
E talvez seja isso que me confunda tanto: você nunca foi totalmente ausência. Só nunca soube permanecer sem medo.
Enquanto isso, eu sigo aqui, tentando entender se algumas histórias voltam porque finalmente amadureceram ou porque ainda não terminaram de destruir a gente.
Mas hoje, sinceramente?
Não quero resposta nenhuma.
Quero apenas esse intervalo estranho entre o caos e a esperança.
Esse lugar onde ainda existe desejo, mas também consciência.
Onde eu posso sentir sua falta sem precisar correr atrás dela desesperadamente.
Onde talvez, pela primeira vez, eu consiga gostar de você sem me abandonar inteira no processo.
E Deus…
como eu queria que dessa vez fosse diferente.